Será que a Força está com a Bit Reactor?
Assim como a Marvel, Star Wars está bastante presente nos videogames com uma franquia consolidada pela EA, um recente jogo de ação e aventura da Ubisoft e um vindouro título sob os cuidados de Amy Hennig. Mas um novo jogo está chegando de forma discreta e com uma abordagem diferente para os fãs da marca.
Star Wars Zero Company é um jogo tático de estratégia com visão isométrica que ecoa a experiência criada por XCOM, porém com a estética da popular franquia intergaláctica. O novo título está sob os cuidados da recém-chegada ao mercado Bit Reactor — que, por coincidência ou não, é formada por ex-desenvolvedores de XCOM — e conta com a consultoria da Respawn, responsável pelos jogos da franquia Star Wars Jedi.
Com lançamento para o dia 27 de agosto de 2026 nas plataformas PS5, Xbox Series e PC, será que todo o conhecimento com XCOM será capaz de entregar um bom jogo de estratégia para Star Wars e, sobretudo, fazê-lo tão relevante quanto os jogos protagonizados por Cal Kestis?
O Combo Infinito teve acesso ao jogo de forma antecipada e, após um preview bastante positivo, podemos dizer se Star Wars Zero Company é tudo isso mesmo ou não.
Mas antes:
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Os Guardiões da Galáxia de Star Wars
Em Star Wars Zero Company, você assume o comando de um esquadrão liderado por um ex-soldado da República, chamado Hawks, que foi desligado de forma desonrosa e que, atualmente, presta serviços pela galáxia de forma autônoma em troca de créditos. Este esquadrão é composto por membros pertencentes a todas as raças possíveis, que também se encontram na mesma situação do protagonista.
Entre um serviço e outro, a Companhia Zero, assim intitulada, recebe a visita de membros da República para um trabalho que, desta vez, envolve uma nova ameaça que surge na galáxia. A República quer terceirizar esse serviço em troca quitar uma dívida antiga que a Companhia Zero tem com um Hutt.


E assim começa a jornada de Star Wars Zero Company, de forma despretensiosa, mas com todo o pedigree de Star Wars. O que vem a seguir, ao longo de mais de 40 horas de jogo, é uma das experiências narrativas mais ricas e bem-feitas da franquia. O roteiro é impecável. Para um jogo de estratégia onde 90% da experiência é o gameplay, a Bit Reactor fez um trabalho formidável ao contar uma história de Star Wars.
Cada linha de diálogo traz um tom de humor e seriedade na medida certa. E posso dizer que não há nenhum personagem ruim ou descartável entre os membros que entram para o esquadrão durante a jornada. Até mesmo os recrutáveis, que não possuem um desenvolvimento profundo, contam com diálogos próprios e muito bem escritos, estando ali para comentar sobre algo recente que aconteceu.
Personagens inesquecíveis
Minha audácia em citar Guardiões da Galáxia não é à toa. Hawks é meio que uma versão mais velha de Peter Quill, Runa traz semelhanças com Gamora, e Kabb se parece muito com Drax. Enfim, seja pela personalidade similar, seja pelo estilo de jornada e pelo humor depositado no roteiro, fato é que Zero Company é uma história que se distancia de figuras centrais deste universo, mas traz grande personalidade com um novo protagonista do qual você pode escolher a raça.
Isso é apenas um pretexto para a construção e desenvolvimento de um protagonista tão bem escrito que conseguiu seu espaço dentro da franquia.
Esse esmero torna cada um desses membros inesquecíveis, a ponto de ser impossível não criar um vínculo e o ápice disso é te fazer carregar um save porque um integrante da equipe morreu a poucos metros de sair da área e concluir a missão. Fiz isso simplesmente por não querer que ele morresse, já que gostava demais da sua personalidade.


Toda essa jornada com personagens despretensiosos se passa durante os momentos finais da era das Guerras Clônicas, e o que acontece após esse evento — que vimos em Star Wars: Episódio III — tem uma grande ligação com a narrativa do jogo. Particularmente, aprecio a forma como a Lucasfilm quer que sua marca apareça em outras mídias: diferente da Marvel, que apresenta universos distintos nos filmes e nos jogos, em Star Wars tudo é conectado, e optar por isso dá ao consumidor momentos únicos, como a aparição de Anakin Skywalker, por exemplo.
A excelente narrativa de Star Wars Zero Company e a tridimensionalidade de seus personagens agregam muito ao universo da franquia, que acaba de ganhar uma nova vertente nos games — e isso, por si só, pode te fazer conhecer o gênero de estratégia tática.
Uma grande família assim…
Ainda sobre esses personagens, quando a Companhia Zero não está em ação, o Covil serve como base do esquadrão. Neste refúgio espacial acontece parte do desenvolvimento interpessoal da equipe, que lembra muito Mass Effect. A interação com os membros é orgânica e muito bem construída, onde, a cada novo desenrolar da história, os integrantes expressam opiniões. Isso frequentemente desencadeia desentendimentos, afinal há membros com pensamentos e ideologias diferentes dos seus.
Certas decisões afetam os diálogos seguintes desses personagens, e a continuidade dessas conversas é fenomenal. Não há diálogos desconexos aqui. Se você iniciou um determinado assunto, no dia seguinte esse tema ainda estará em pauta até que outro surja. Trazer esse cuidado para tornar esse convívio orgânico e contínuo é raro — nem mesmo grandes RPGs espaciais, como Mass Effect, conseguiram fazer isso com tanto detalhamento.
Toda essa interação no ambiente social me lembrou o tom que a série Ted Lasso trouxe. A conectividade e o desenvolvimento de personagens que antes eram rasos e começam a ganhar camadas — com um líder que serve como grande força motriz para que isso ganhe forma — são o grande destaque dessa iniciativa de tornar o Covil um lugar para esse tipo de convívio.
Conforme você avança na história principal, há missões secundárias dedicadas aos membros do esquadrão que se preocupam em externar o passado desses nomes e torná-los ainda mais cativantes — seja uma Jedi que não se julga capaz, seja um companheiro que teve que abandonar a família para salvá-la e viver como um fantasma na galáxia.


Todas as nuances desses personagens tornam a narrativa de Zero Company o seu ponto mais forte, além, é claro, do seu gameplay.
Tático, mas sem perder a identidade de Star Wars
Todas as fundações do gênero tático estão aqui, como a presença de pontos de ação (PA), a estrutura de movimentação e o fator de aleatoriedade. Contudo, a magia e o estilo artístico de Star Wars falam mais alto — seja pelas figuras marcantes dos inimigos e suas falas, seja pelos poderes à sua disposição.
É empolgante controlar um Jedi e empurrar um inimigo para fora do cenário ou fazer combinações entre os membros da equipe. O nível de satisfação ao eliminar um doido ou um clone é sem igual. Tudo o que envolve a liturgia de se jogar um título tático de estratégia é bem-feito e intuitivo, seja pelo design de som dos blasters, seja pela interação dos inimigos e suas características marcantes que conhecemos dos filmes.


Toda essa dinâmica ganha um frescor com o design de mapa adotado pela Bit Reactor, que impulsiona o gênero para a frente. As batalhas táticas ganham nuances através de objetivos variados (como resgatar civis, plantar bombas, interceptar informações ou simplesmente eliminar todos os inimigos do local), fazendo o jogador adotar posturas e raciocínios diferentes, ao invés de tornar monótona uma experiência que já exige tempo demais do jogador.
Tudo funciona para entregar um sistema de combate fluido e dinâmico, sempre com o intuito de fazer o jogador se reinventar e usar a criatividade com diversas abordagens nos cenários.
Além do campo de batalha
Contudo, algo que quebrou um pouco a experiência foram os problemas de câmera durante as sessões de combate, principalmente na troca de turnos. Em certos momentos, a câmera não acompanha a ação ou não entrega a melhor visão — às vezes, a perspectiva do jogador vai parar debaixo do cenário ou em um ponto sem visibilidade alguma.
Além disso, há momentos em que o fator aleatoriedade tende a favorecer o inimigo, ao invés de oferecer uma balança justa. Mas tudo isso é recompensado com a chegada de novos membros que mudam a dinâmica no cenário de forma definitiva.
O gameplay de Zero Company não se resume apenas às batalhas em campo. Dentro do Covil, o jogo oferece dois tipos de missões: as Operações (tarefas breves sem combate, mas com escolhas onde você toma decisões com impacto na narrativa ou mobiliza aliados para realizarem objetivos) e as Missões Táticas (onde ocorre o combate e você avança na história). Além disso, haverá momentos em que você deve tomar a ingrata decisão de escolher entre duas melhorias do inimigo e eliminar uma delas: a que você não escolher se tornará uma melhoria permanente do inimigo até o final do jogo.


Todas essas missões possuem ciclos (que representam dias) para serem concluídas, algo semelhante à mecânica das franquias Persona e Metaphor: ReFantazio. Esse segmento de gerenciamento, somado ao sistema de vínculo com os membros e à evolução da base com departamentos para construir que afetam o combate, adiciona um extra à experiência tática.
Conhecendo novos lugares em uma galáxia muito distante…
Mesmo sendo um jogo focado em estratégia, a Bit Reactor quis subverter essa ideia oferecendo missões de exploração antes de chegar ao conflito das batalhas táticas. Conforme você avança na história, haverá planetas onde o jogador poderá explorar livremente, coletando informações e interagindo com pontos específicos. Essa sensação de liberdade abriu espaço para a direção de arte brilhar. Todos os locais onde a exploração se torna possível apresentam visuais incríveis, como um planeta conhecido por suas plantas mortais ou as profundezas de uma mina.
Concebido na Unreal Engine 5, Star Wars Zero Company traz um visual amadurecido para os games deste gênero, que muitas vezes pouco se importam em entregar visuais realistas e caprichosos para seus personagens. As cinemáticas presentes no game possuem um excelente trabalho visual, com uma cinematografia que respeita o padrão dos filmes de Star Wars e uma trilha sonora que dispensa comentários.


Todo esse esmero só prova que não é porque Star Wars ganhou um jogo tático de estratégia que perderia sua identidade ou teria um visual abaixo do padrão. É por causa desse carinho que este game provou ser um produto refinado e de qualidade, facilmente recomendável entre os grandes títulos transmídia de Star Wars.
Meu review aconteceu em uma RTX 4070 Super e não presenciei nenhum bug ou queda brusca de desempenho. Detectei apenas travamentos bem específicos na hora de carregar algumas informações em tela ou durante a passagem de turno nos combates.
Veredito
Respondendo à indagação do início deste review: sim, Star Wars Zero Company é um excelente jogo tático de estratégia, inclusive o melhor que já joguei. Sobretudo, é um excelente material sobre Star Wars que traz uma história independente muito bem escrita — desta vez sem Jedi — e que entrega a qualidade que a marca vem recebendo nos jogos da Respawn.
Se você é fã de Star Wars, é um jogo que vale a pena experimentar, seja você apreciador do gênero de estratégia tática ou amante de uma boa história. Tenho certeza de que ele irá te convencer a ficar.
É tudo isso mesmo?: Star Wars Zero Company funde brilhantemente a estratégia tática no estilo XCOM com uma narrativa focada em esquadrão surpreendentemente rica, que se destaca entre as melhores da franquia. A dinâmica memorável entre os companheiros, o gerenciamento orgânico da base e o design variado das missões proporcionam um enorme engajamento mecânico e emocional ao longo de sua campanha. Pequenos problemas de câmera durante a transição de turnos e picos ocasionais baseados em sorte atrapalham ligeiramente o ritmo do combate. No entanto, os visuais deslumbrantes na Unreal Engine 5 e as escolhas de gameplay refinadas tornam o jogo uma conquista imperdível para fãs de estratégia e entusiastas de Star Wars. – João Antônio
Recebemos Star Wars Zero Company antecipadamente para review e agradecemos à Electronic Arts pela confiança.










