Hoje a Pulsatrix é um dos estúdios independentes mais promissores dentro da indústria de games. O estúdio brasileiro (motivo de muito orgulho deste que vos escreve) ao longo dos anos provou sua qualidade em criar experiências aterrorizantes que foram reconhecidas e elogiadas por todo o mundo. Após a excelente recepção de A.I.L.A., a Pulsatrix não tirou o pé do acelerador e, de forma inesperada, anunciou seu mais novo projeto: Otherside Tapes: Favela.
Esta nova iniciativa do estúdio traz uma jornada mais nacional, situando-se na cidade do Rio de Janeiro. O jogo tem estreia marcada para o dia 22 de outubro de 2026 no PC, e o Combo Infinito teve a oportunidade de jogá-lo de forma antecipada.
Desde já, agradecemos a confiança da Pulsatrix em nos disponibilizar a chave do jogo para review.
Depois de todo o sucesso de A.I.L.A., será que a Pulsatrix manterá a qualidade de suas produções anteriores ou estaremos diante de uma evolução de tudo o que já vimos do estúdio?
Me acompanhe e descubra se Otherside Tapes: Favela é tudo isso mesmo ou não.
Uma favela como você nunca viu


Em Otherside Tapes: Favela, acompanhamos o criador de conteúdo sobre atividades paranormais e lendas urbanas Cláudio da Silva entrando nas ruas estreitas de uma favela no Rio de Janeiro em busca da infame Rua 7 — um local cercado por histórias de desaparecimentos e ligado a um incêndio devastador que destruiu a comunidade anos antes.
O que começa como uma exploração aparentemente comum rapidamente se transforma em um pesadelo quando Cláudio se vê preso em um ciclo de realidades distorcidas, oferendas ritualísticas e manifestações sobrenaturais. À medida que os mesmos lugares se transformam ao seu redor, ele precisa descobrir o que aconteceu na Favela das Almas enquanto tenta escapar de uma entidade que parece controlar tudo naquele lugar.
Diferente de tudo o que vimos da Pulsatrix, Otherside Tapes: Favela é uma produção intimista e imersiva do estúdio. E parte dessa identidade está na forma como vivemos esta história com Cláudio: o jogo adota uma perspectiva em primeira pessoa mais imersiva através do estilo de Found Footage que ele adota.
O mistério por trás desta favela é o grande destaque desta narrativa pesada. Os acontecimentos e toda a mitologia que dão vida a este evento sobrenatural são cativantes. Enquanto A.I.L.A. leva o terror para o espectro da Inteligência Artificial, Otherside Tapes: Favela é uma experiência mais pé no chão, abordando o terror psicológico da forma mais crua e cristalina.
Para dar mais conexão à narrativa, o jogo possui uma excelente dublagem em português do Brasil. As gírias e as falas estão bem executadas, e os sentimentos de medo e tensão foram muito bem transmitidos.
A Pulsatrix atinge um novo estágio


Este novo projeto da Pulsatrix tem um escopo menor e uma duração mais curta do que os títulos anteriores. Contudo, a construção desta experiência em termos de atmosfera e ambientação, na minha opinião, supera as mais recentes produções do estúdio. Posso estar me equivocando, mas Otherside Tapes: Favela é um flerte com o que veremos da desenvolvedora nos próximos anos para o gênero de terror nos games.
Todo o jogo se passa dentro de uma pequena área da favela. Este cenário possui diversas ruas para se explorar, dando vida ao backtracking do game. Enigmas e itens estão de volta, e de uma forma ainda mais criativa e desafiadora. A sensação que tive jogando foi a mesma de quando joguei P.T. e a demonstração de Resident Evil 7. E isso não é um demérito: falo da forma como tudo é construído, como se eu estivesse experienciando uma fatia do que ainda está por vir. Porém, Otherside Tapes: Favela é mais complexo e profundo; há um desenvolvimento narrativo e uma progressão de mecânicas e de cenários.
A decisão de abordar o terror psicológico não é uma novidade para a Pulsatrix, mas Otherside Tapes: Favela eleva este conceito de forma genial, sem precisar te encher de jumpscares ou colocar criaturas horrendas no cenário. A favela em que Cláudio se encontra é silenciosa, e este aspecto por si só desenvolve a tensão de forma impressionante. A atmosfera do jogo te entrega cenários, design de áudio e situações que alimentam sua mente para um grande susto a seguir.
Desbloqueando uma nova fobia
Mas isso muitas vezes não acontece, pois enganar a mente que espera o óbvio (o susto) e aliviar a tensão para logo em seguida te pegar desprevenido é o melhor tipo de terror que há — algo que o filme Obsessão e os novos filmes de terror moderno entregam, e que Otherside Tapes: Favela faz muito bem.
Com toda a vibe de Silent Hill, a Rua 7 passa por mudanças conforme você explora a área. Essas alterações de realidade trazem ameaças de forma gradual. A primeira etapa é focada na exploração e apresentação dos eventos deste lugar; depois, a favela escurece e pessoas de cera começam a ocupar o local que estava abandonado e sem ninguém. Se Silent Hill trouxe uma visão deturpada e aterrorizante para os manequins, Otherside Tapes: Favela acaba de fazer o mesmo com bonecos de cera. A bizarrice por trás dessas criaturas é amedrontadora. Seus olhares, o andar e a forma como aparecem para te dar um susto criam uma atmosfera tão desconfortável que precisei dar uma pausa na jogatina para sair dessa experiência sufocante e opressora.


A terceira fase da favela coloca estes seres de cera de forma mais ativa, onde agora eles são capazes de te perseguir. Eles vão atrás de você se você não olhar para eles; se você olhar, eles não te seguem. É uma dinâmica que já existe em muitos jogos de terror indie, mas que aqui é muito bem executada.
A arte de fritar o cérebro
Saindo da tensão, Otherside Tapes: Favela entrega ótimos puzzles e um sistema de backtracking excelente. A área da favela não é tão grande, porém possui um certo nível de verticalidade, e a forma como o jogo faz o jogador explorar cada canto é muito bem trabalhada. Para dar mais longevidade à progressão, o game usa o conceito de realidades alternadas para te fazer acessar áreas bloqueadas.
O jogador consegue explorar a favela em três realidades: de dia; à noite (onde o uso da visão noturna é essencial, cujos momentos lembram muito Outlast); e toda coberta por névoa, onde estará sob ameaça constante. Avançar no jogo te fará explorar as três realidades, coletando itens e resolvendo puzzles. O mais legal é que algumas ações são permanentes entre as três fases: por exemplo, uma porta que você abre quando a favela está de noite continuará aberta durante o dia para você coletar um item importante em uma casa à qual não tinha acesso antes.


Essa conexão entre realidades entrega um game design coeso com a narrativa e evita que a exploração neste pequeno cenário seja uma tarefa cansativa.
Quanto aos puzzles, eles são geniais. A Pulsatrix vai fritar seus neurônios com enigmas que honram o legado dos grandes do gênero. Mas não se preocupe: o estúdio foi generoso em dar dicas através de documentos que ajudarão na hora de encarar cada desafio.
Um visual impressionante
A Pulsatrix já demonstrou toda a sua expertise na hora de criar visuais e ambientes realistas na Unreal Engine — A.I.L.A., por exemplo, é a prova disso. Com Otherside Tapes: Favela, o estúdio atingiu um novo patamar. A recriação do cenário de uma favela, os interiores das casas e a iluminação são impressionantes, mesmo para uma perspectiva de Found Footage. Embora eu ache que a decisão de dar ao jogador a visão específica através de uma bodycam ofusque um pouco o impacto visual do jogo por conta de todas as características de estar vendo algo sob a ótica de uma câmera, ainda assim o game entrega um desempenho visual impressionante.
As pessoas de cera são bizarramente modeladas, com um sorriso macabro e olhar aterrorizante, passando uma tensão enorme sempre que preenchem a tela. Diante disso, o que mais me impressionou foi o cuidado da Pulsatrix em trazer a cada ambiente interno uma experiência visual única. Todos os interiores possuem designs diferentes e simulam muito bem a realidade de quem em uma favela. O que quero dizer é que cada cômodo tem uma estrutura própria em locais diferentes: seja as roupas, seja os utensílios básicos de uma casa, todos estão configurados e inseridos de forma meticulosamente realista, sem que se repitam.


Mesmo assim, ainda acho que uma experiência tradicional (sem ser em Found Footage) enriqueceria ainda mais o visual de Otherside Tapes: Favela.
Veredito
Otherside Tapes: Favela é uma experiência curta, mas que entrega muito em termos visuais, narrativos e como mais uma obra formidável de terror vinda da Pulsatrix. Toda a jornada explorando uma favela com ligações sobrenaturais foi o convite perfeito para o que está por vir da desenvolvedora em termos técnicos e criativos.
Embora a decisão de levar a expedição para o lado do Found Footage tenha ofuscado um pouco o potencial visual bruto do jogo, tudo o que vi é incrível e mais uma vez consolida o estúdio brasileiro como referência do gênero.
É tudo isso mesmo?: Otherside Tapes: Favela consolida a brasileira Pulsatrix como referência no gênero ao entregar uma experiência intimista de terror psicológico em Found Footage. Ambientado no Rio de Janeiro, o título destaca-se pela atmosfera perturbadora, excelente trabalho de dublagem em português, backtracking inteligente entre três realidades e puzzles desafiadores. – João Antônio










