Cairn é um tipo de jogo que vai fazer você odiá-lo ou enxergá-lo através de uma outra ótica. Desenvolvido pelo estúdio francês The Game Bakers (fundado por ex-funcionários da Ubisoft em 2010 e atualmente composto por 17 pessoas), conhecido por jogos como Heaven (2020) e Furi (2016), desta vez o estúdio francês decidiu criar uma aventura colocando a escalada como o foco central da experiência.
E não é qualquer experiência de escalada. Cairn é um simulador de escalada que será bastante familiar para games que buscam o realismo com mecânicas de movimento bizarras, como o recente Baby Steps, Octodad: Dadliest Catch, Hand Simulator, Surgeon Simulator, entre outros.
Por outro lado, o título também traz uma certa familiaridade com Death Stranding, com a atmosfera vazia e isolada, e com Jusant, um recente jogo de escalada da Dontnod.
Dito isso, Cairn chega ao mercado hoje, 29 de janeiro de 2026, nas plataformas PS5 e PC. O Combo Infinito teve a oportunidade de embarcar nesta aventura desafiadora, e eu lhe conto se Cairn é tudo isso mesmo.
A grande jornada de Aava

No jogo, assumimos o controle de Aava, uma alpinista profissional que embarca na escalada do Monte Kami, um cume jamais alcançado. Ao longo da jornada, a personagem encontrará companheiros inesperados e conhecerá histórias daqueles que tentaram este mesmo feito, mas ficaram para trás.
À primeira vista, julguei Cairn como apenas um jogo de escalada vazio, onde a gameplay realista e cirúrgica era tudo o que o jogo tinha a me oferecer. Conforme você escala infinitas montanhas, o jogo, de forma sutil, começa a apresentar personagens fora de tela que possuem vínculos com Aava, como sua parceira, que informa sobre a saúde do gatinho que ambas criam, ou também um colega responsável pelos patrocínios de Aava.
De forma despretensiosa, o jogo apresenta essas subtramas que, aos poucos, começam a contar uma história que eu jamais imaginava que existia. Embora seu maior foco seja a escalada, Cairn é muito mais do que isso. Os dilemas que Aava tem que carregar, e tudo o que abdicou e ainda terá que abdicar para alcançar seu grande objetivo (ser a primeira pessoa a escalar o Monte Kami) fazem desta experiência algo único e emocionante.
Além disso, ao longo desta grande escalada, uma história sobre um povoado troglodita que habitavam estas regiões montanhosas expande ainda mais a narrativa do game.
Em resumo, a sutil narrativa de Cairn é o que há de mais transformador e me fez ter uma perspectiva diferente daquela que havia idealizado antes. Mesmo com as difíceis sessões de escalada, você sempre será recompensado por fragmentos narrativos que o tornam mais íntimo de Aava e dos seus.
Sentindo na pele os perigos da escalada

Cairn é uma experiência que simula a escalada, porém com movimentos nada realistas, como vimos em Jusant, por exemplo. Aqui, o jogo adota aquelas mecânicas bizarras de games que buscam fazer da sua gameplay um inferno de dificuldade. Embora isso seja uma das críticas ao gameplay, pois é uma decisão de design, Cairn conseguiu me proporcionar o desespero e a aflição ao tentar escalar cada nova montanha, mas também me entregou doses catárticas de satisfação quando derrotei cada complexo montanhoso.
Essa dualidade de sentimentos é a magia deste gameplay. Todo o processo de escalada é desafiador: cada parede parece uma luta contra um chefe. Um desafio emocionante para aqueles que desejam se testar, mas que também permite ajustar a dificuldade para personalizar sua experiência.
Caso você esteja tendo dificuldade, o que será natural, o jogo dispõe de opções de acessibilidade que tornam a experiência menos punitiva, mas não menos desafiadora.
Além disso, o jogador tem a liberdade de escalar em qualquer lugar. Antes de iniciar sua escalada na montanha, você pode observar a parede rochosa do chão e planejar sua rota cuidadosamente para chegar ao topo.
Um detalhe interessante nesta experiência que simula a jornada de um alpinista é a possibilidade de gerenciar seus recursos para sobreviver durante a longa subida. Aava possui uma bolsa repleta de equipamentos e alimentos, como pitons, magnésio e fita adesiva para os dedos, mas também comida, água e medicamentos.
Além disso, ao longo do progresso, é possível salvar o jogo e criar uma tenda. Dentro da tenda, você pode cozinhar, organizar sua mochila (ao melhor estilo Resident Evil 4) e cuidar dos seus dedos com curativos ou simplesmente esperar o tempo passar. No entanto, isso lhe custará barras que representam fome e sede, que diminuem conforme o tempo passa e durante a escalada.
Cairn conseguiu entregar a adrenalina e o sentimento tenso de uma escalada. Escalar todas as montanhas que o jogo apresenta é uma experiência desafiadora e cirúrgica, onde você nunca estará relaxado.
A recompensa pela aventura

Se há uma coisa mais satisfatória em Cairn, é alcançar uma parte plana após vencer uma escalada. A The Game Bakers sempre se mostrou um estúdio artístico que sabe usar de forma excelente o visual de seus jogos. Cairn não possui um visual realista, mas a simplicidade de sua estética entrega uma ambientação linda, que facilmente viraria belos quadros e registros de qualquer alpinista.
O nascer e o pôr do sol, e a noite enfeitada por centenas de estrelas, são o cartão-postal e uma grande recompensa para quem embarcar nesta jornada. O jogo também apresenta um clima dinâmico, com a passagem do dia e da noite de forma natural, além da presença de chuva e ventania, que dificultam ainda mais sua escalada.
Além de contemplar as belezas do alto, a atmosfera que o jogo cria em momentos de estresse e escalada, por meio do design de som, é incrível. Os gritos de Aava ao cair de grandes alturas e seus gemidos de dor que precedem a queda injetam doses altíssimas de suspense à experiência.
Nem tudo é escalar. Ao pisar em solo plano, há locais onde você pode coletar itens, descobrir segredos e repor sua água. No entanto, há itens que também podem ser coletados durante a escalada, e não somente em solo plano.
Mas afinal, Cairn é tudo isso mesmo?
Em suma, Cairn me surpreendeu fortemente. Sua proposta como simulador de escalada tem muito mais a oferecer do que apenas sua gameplay complexa e desafiadora. A The Game Bakers trouxe uma experiência totalmente contrária aos seus títulos anteriores e entregou a experiência mais desafiadora de 2026.
Sua narrativa sutil, que se desenvolve de forma despretensiosa, conseguiu me conectar fortemente com a jornada de Aava. No entanto, minha única ressalva está na física dos movimentos durante a escalada, que por muitas vezes eleva a dificuldade do gameplay não pela falha do jogador, mas pela falta de precisão dos movimentos.
Veredito: Cairn é uma jornada de escalada muito além da simples dinâmica de se apoiar e ter resistência. Por trás dos controles desafiadores, há uma históriasutil replta de dilemas – João Antônio









