Em 2019, a Infinity Ward decidiu fazer um reboot de Modern Warfare, a subfranquia mais popular de Call of Duty. Com uma nova engine, o realismo de suas mecânicas e uma narrativa mais soturna, esse reboot mudou a franquia para sempre, dando início a uma nova era com o nascimento do Warzone e o fim das práticas de expansões pagas.
Sete anos depois, a Infinity Ward e sua popular subfranquia se encontram na mesma situação, em que Call of Duty: Modern Warfare 4 será o fim da linha para a saga Modern Warfare, com a desenvolvedora se desvencilhando de vez das histórias com o Capitão Price e a Força-Tarefa 141.
Com lançamento oficial no dia 23 de outubro de 2026 nas plataformas PS5, Xbox Series, Switch 2 e PC, Call of Duty: Modern Warfare 4 foi capaz de entregar um desfecho digno?
Me acompanhe e descubra se Call of Duty: Modern Warfare 4 é tudo isso mesmo ou não.
Uma das grandes mudanças do reboot quando chegou em 2019 foi o amadurecimento da narrativa. O retorno de Modern Warfare se desprendia totalmente dos clichês de super-soldados e das situações em que você era um exército de um homem só. Isso também se aplicou ao nome que carregou essa subfranquia por anos: Capitão Price.
Uma despedida de tirar o fôlego
Esse tipo de narrativa mais intimista e pessoal se tornou marca registrada desta visão moderna de Modern Warfare, e que agora, em seu quarto jogo, elevou o nível de qualidade dentro da franquia.
Depois de matar Shepherd em Modern Warfare 3 (2023) — fato recapitulado logo no menu de Modern Warfare 4 —, o Capitão Price agora é visto como um fugitivo pelos EUA. Considerado uma ameaça, Price está em busca do “Arqueiro” a qualquer custo, mesmo que isso coloque em xeque sua lealdade e seus princípios.


Neste meio-tempo, também estaremos diante do início de uma guerra entre as Coreias (do Norte e do Sul), cujo objetivo é explorar novos personagens e revelar uma ligação com o vilão deste novo game.
Os minutos iniciais de Modern Warfare 4 são suficientes para provar que a Infinity Ward queria entregar algo grandioso, mas também dramático e corajoso. A produtora se tornou bastante conhecida pela famigerada missão de Modern Warfare 2 (2009), “No Russian”, em que você presencia a execução de inocentes em um aeroporto. Essa missão causou bastante discussão na época, mas o estúdio se manteve firme acerca do que queria contar na narrativa daquele jogo específico.
Com o reboot de 2019, a Infinity Ward trouxe uma filosofia mais madura e dramática para Modern Warfare em seu retorno. Porém, em MW4, o estúdio não usou rédeas e conseguiu criar eventos tão desconfortáveis e pesados quanto a missão “No Russian”.
Minha única ressalva vai para a forma como a narrativa trata Makarov, um dos grandes vilões da trilogia original e moldado para ser o grande antagonista deste novo reboot. Parte desse desenvolvimento aquém do esperado está na inclusão de um novo vilão interpretado por Mads Mikkelsen, que eclipsou toda a imagem imponente de Makarov dentro da subfranquia.
Nem parece que joguei um CoD
Durante os eventos que retratam o conflito entre as duas Coreias, o jogo retrata de forma formidável as vidas de quem vive sob um regime autoritário. E nós, jogadores, fazemos parte deste regime invadindo casas e executando inocentes. Não há nada mais desconfortável do que ver esse tipo de coisa. Agora, imagine controlar um soldado que entra em uma casa, ameaça moradores e é submetido a enforcar um inocente. Modern Warfare 4 te faz passar por isso — algo bem semelhante à forma como a franquia Homefront retrata sua campanha.


Este sentimento, embora não seja inédito na franquia — pois já estivemos no controle de um terrorista na missão “No Russian” —, faz MW4 incomodar e exalar diversos tipos de emoções ao longo de sua jornada.
E essa sensação é algo inédito na franquia como um todo. Eu jamais imaginei estar jogando uma campanha de Call of Duty (que majoritariamente é baseada em tiros, explosões e companheiros guiados por uma IA fraca) e estar na frente da TV constrangido com uma cena ou indignado com o rumo de certos personagens. Modern Warfare 4 me fez vivenciar a campanha de um shooter em primeira pessoa sob uma perspectiva diferente, desbloqueando emoções que jogos como The Last of Us ou Clair Obscur: Expedition 33 foram capazes de me proporcionar. Não estou comparando a narrativa de Modern Warfare 4 diretamente com essas duas obras-primas, mas sim a forma como essa campanha me despertou sentimentos que tradicionalmente um FPS não é capaz de fazer através de seu enredo.
A narrativa de MW4 é, sem dúvidas, a melhor não apenas da subfranquia, mas de toda a série. A forma como a Infinity Ward preparou este desfecho é digna de seu legado e encerra de forma honrosa esse conto que trouxe tantos frutos para a Activision.
Diversas formas de se jogar um CoD
Modern Warfare 4 traz uma grande variedade de mecânicas para sua campanha — quiçá a mais diversificada de toda a franquia. Entre as formas de jogar, que incluem missões com mecânicas de stealth e coleta, o grande destaque vai para a presença do combate corpo a corpo.
Essas missões exigem uma excelente coordenação motora na hora de bloquear e atacar, trazendo uma abordagem inédita para a série. Essa mecânica estará presente em momentos específicos da campanha, transmitindo a ideia de um verdadeiro duelo.
Mas ainda há mais. Esta nova era de Call of Duty, em que novos modos aparecem no pacote a cada novo título, possibilitou aos estúdios trazerem uma simulação desses modos para dentro da campanha — e em Modern Warfare 4 não foi diferente. Para 2026, a Infinity Ward trará um modo de extração pago chamado DMZ, que na prática quer concorrer com os grandes do mercado, como Tarkov e ARC Raiders.
Desta forma, a campanha de MW4 traz missões planejadas para dar ao jogador a ideia de estar jogando esse modo pago e despertar nele o interesse de compra. Comigo não funcionou; porém, a forma como a ideia do modo é aplicada na campanha respeitando o contexto narrativo agrega ao conjunto.
Modo extração na campanha
O que mais me incomodou na campanha deste novo CoD (na verdade, em todas as campanhas recentes) é o mau uso da inteligência artificial para os companheiros de gameplay. É inacreditável que, ano após ano, novas engines cheguem à franquia, novos títulos e mecânicas sejam desenvolvidos, mas a IA continue a mesma de 2007. Se o estúdio quer que o jogador elimine os alvos e não a IA, que crie uma campanha em que você é um exército de um homem só — como a franquia Metro faz, por exemplo —, em vez de encher a tela de colegas soldados que ficam trocando tiros com os inimigos em um loop infinito até você agir e eliminar o alvo.
Isso soa ultrapassado para o atual cenário em que vivemos, no qual a IA tem um papel muito mais evoluído na indústria. A Nvidia está no mercado com o Nvidia ACE, uma tecnologia que transforma NPCs em organismos vivos e reativos, em vez de uma peça em 3D que apenas repete uma linha de diálogo.
Sem muitas evoluções em cenários variados
Em 2019, a Infinity Ward marcou o retorno de Modern Warfare com o visual mais realista de toda a franquia. Esse impacto tecnológico obrigou os demais estúdios a usarem o mesmo motor gráfico para seus títulos futuros. Com Modern Warfare 4, não há esse mesmo impacto de 2019, pois já nos acostumamos visualmente com a engine ano a ano nos outros jogos da série.
Contudo, a variedade de cenários em que toda a campanha se desenrola é um ponto destacável. Desde correr pelas ruas nevadas da Times Square até cruzar as ruas de Paris ou visitar locais nas Coreias, o jogo traz uma variedade visual e de ambientes impressionante.


Minha análise aconteceu na versão de PC, em que notei problemas de desempenho. O uso de Ray Tracing de alguma forma desabilita as opções de dimensionamento que o jogo usa — como DLSS, FSR e XeSS — e ativa uma opção que não consegue manter uma estabilidade na taxa de quadros. Até o momento em que este review está sendo publicado, não houve qualquer atualização ou explicação oficial para reverter esse caso.
Veredito
Call of Duty: Modern Warfare 4 traz a melhor campanha da franquia desde sua criação e entrega um desfecho honroso para seus personagens. Toda essa qualidade no roteiro mostra uma Infinity Ward narrativamente madura e capaz de criar algo excelente que não esteja necessariamente atrelado ao nome Call of Duty.
Definitivamente, eu não estava preparado para esta campanha e fui surpreendido por tudo o que ela entregou.
É tudo isso mesmo?: Call of Duty: Modern Warfare 4 encerra a saga com a melhor e mais madura campanha da franquia, entregando um desfecho corajoso repleto de decisões narrativas pesadas e momentos de grande impacto emocional. Combinando novas mecânicas de combate corpo a corpo, excelente variedade de cenários e a atuação de Mads Mikkelsen, o título supera problemas de IA dos companheiros e falhas técnicas de Ray Tracing no PC para entregar uma despedida inesquecível. – João Antônio
Agradecemos à Activision pelo envio antecipado do código para análise.










