2025 tem sido um ano marcante para a indústria de games. Novos estúdios com orçamentos modestos estão entregando experiências marcantes e, em muitos casos, superiores às de grandes empresas com investimentos inflados. Um exemplo notável é Clair Obscur: Expedition 33, um RPG desenvolvido por apenas 33 pessoas, lançado em abril e já considerado uma das grandes sensações do ano. Agora, Eriksholm: The Stolen Dream chega para mostrar que qualidade não depende exclusivamente de orçamento.
Seja pelo excelente trabalho na construção de personagens que engrandecem a narrativa em suas cinemáticas, seja pelo gameplay e ambientação envolventes, Eriksholm: The Stolen Dream respeita suas limitações e entrega uma experiência marcante. E isso foi o suficiente para me cativar do início ao fim.
Desenvolvido pelo estúdio sueco River End Games, Eriksholm: The Stolen Dream foi lançado em 15 de julho de 2025 para PS5, Xbox Series e PC (Steam). O Combo Infinito teve acesso antecipado à versão de PC, o que nos permitiu conhecer essa aventura com profundidade.
Eriksholm e seus mistérios

Ambientado na cidade de Eriksholm, acompanhamos a jornada da jovem Hanna, que parte em busca de seu irmão Herman, desaparecido misteriosamente. Movida por essa missão, Hanna embarca em uma aventura cheia de perigos e revelações, onde um segredo pode mudar o destino da cidade para sempre.
Desde o início, é evidente a importância de Eriksholm na narrativa, que equilibra uma atmosfera mais leve com momentos delicados. Ao colocar uma jovem como protagonista, o jogo remete a histórias no estilo Peter Pan, em que crianças enfrentam figuras adultas e imponentes. Toda a jornada de Hanna carrega esse espírito.
Para dar ainda mais vida à narrativa, o estúdio apostou no uso da tecnologia MetaHuman da Unreal Engine 5 para dar realismo aos personagens. O resultado são cinemáticas impressionantes, com atuações convincentes e cheias de emoção. Embora eu tenha sentido falta de mais cenas de corte (o jogo conta com apenas cinco), compreendo as limitações de um estúdio pequeno, com apenas 18 desenvolvedores — incluindo o CEO, que também atua como produtor.
Ainda assim, o trabalho feito aqui é digno de destaque. A narrativa prende, emociona e impressiona, e a cidade de Eriksholm se impõe como o verdadeiro personagem principal. Seja por meio de bilhetes presentes pelos cenários, pela ambientação detalhada ou pelos personagens, tudo colabora para tornar essa cidade memorável.
Um gameplay que vai instigar seu raciocínio

Eriksholm oferece uma experiência em perspectiva top down (isométrica), que remete bastante à franquia Desperados, atualmente pertencente à THQ Nordic. Durante toda a jornada de resgate, Hanna enfrentará diversos cenários tentando sobreviver aos soldados do prefeito — um líder com postura ditatorial. Basicamente, é preciso usar estratégia para atravessar os cenários sem ser detectado. É possível controlar até três personagens, cada um com habilidades específicas: dardos tranquilizantes, pedras para distração ou força física. Além disso, cada um deles possui formas distintas de locomoção, como entrar em dutos, subir em canos ou nadar.
Embora pareça simples, há complexidade nessa dinâmica de gameplay. No início, você controla apenas Hanna. Com o avanço da história, dois novos personagens entram para o grupo, o que lembra bastante a estrutura de JRPGs. A chegada desses novos membros à dinâmica furtiva proporciona um gameplay que instiga o raciocínio em diversas situações. A presença do trio é bem utilizada — os cenários e os desafios foram pensados para aproveitar as habilidades de cada um. E quando tudo dá certo, a sensação é extremamente satisfatória. Não se trata apenas de se esconder e seguir em frente quando um guarda vira as costas. Vai além disso. É a sinergia entre os protagonistas e os desafios impostos pelo jogo que brilham aqui.
Ressalvas
Mas, ao mesmo tempo em que o gameplay impressiona, há um detalhe incômodo: a repetição constante de mecânicas já apresentadas. Todo início de jogo serve como um tutorial, e os primeiros minutos — ou horas — são fundamentais para o aprendizado de sistemas e elementos. No entanto, diferente de JRPGs como Persona, que introduzem novas mecânicas até o fim do jogo, Eriksholm insiste em repetir o básico durante toda a campanha.
Enfim, Eriksholm comete o mesmo erro de The Order: 1886, exclusivo de PS4 lançado em 2015, conhecido por apresentar tutoriais excessivos mesmo após o jogador já ter aprendido suas funções. Aqui, a proposta é mais simples, com poucos botões e uma travessia baseada em entrar e sair de locais ou subir e descer estruturas. Todas essas mecânicas são ensinadas no começo, mas continuam aparecendo na tela até os momentos finais. Particularmente, achei desnecessário — já estava claro como subir, descer, entrar e sair de ambientes.
Outro ponto negativo é o excesso de dicas dadas pelos próprios personagens durante o jogo. Em vários momentos, quando tentei parar para pensar em uma estratégia, algum personagem logo dizia algo como: “quebre as lâmpadas para que os guardas não nos vejam!”. Isso tira completamente o prazer de resolver os desafios por conta própria.

Por fim, a inteligência artificial dos inimigos também deixa a desejar em certos momentos. Uma das personagens usa pedras para distração, com uma área de alcance delimitada que mostra até onde a pedra pode ser jogada. Porém, o jogo determina áreas específicas onde a distração realmente funciona. Muitas vezes, joguei uma pedra bem perto de um inimigo — ou até na frente dele — e ele não reagiu. Isso não faz sentido, especialmente porque o objeto estava claramente em seu campo de visão.
Eriksholm, a grande protagonista desta aventura

Como citei anteriormente, Eriksholm é a grande estrela deste jogo. Tudo culmina para que a cidade seja a verdadeira protagonista, enquanto o elenco, a narrativa e a ambientação funcionam como elementos secundários — mas ainda assim relevantes — dessa jornada.
Tudo começa com uma abertura que dá ênfase a esse lugar tão povoado quanto dividido. Os cartazes exibindo a figura de um grande líder e os textos que ajudam a entender mais sobre os mistérios da cidade — por que Herman desapareceu? — trabalham a favor da imersão que o jogo propõe ao jogador.
Suas ruas dominadas por guardas e a reclusão dos moradores também indicam que algo está errado. A sensação é de que a cidade cresceu além da sua capacidade, como se já não houvesse espaço suficiente para abrigar tanta gente.
É nesses momentos que a ambientação se destaca, apresentando o cotidiano, as divisões e o submundo dessa cidade que vive uma farsa e está prestes a passar por uma grande transformação. Cada local em Eriksholm tem sua própria identidade e foi construído com muito cuidado. O senso de exploração de cada cenário é modesto, mas respeita suas limitações e oferece colecionáveis em cada capítulo.
Conhecer Eriksholm foi uma viagem inesquecível — especialmente pela forma como fui apresentado a esse mundo, com seus personagens, suas motivações e sua realidade indecifrável.
Mas afinal, Eriksholm: The Stolen Dream é tudo isso mesmo?
Sim. Eriksholm: The Stolen Dream é um jogo fiel às suas propostas e limitações. Com apenas 18 desenvolvedores, a River End Games entregou uma experiência visualmente linda, com um gameplay instigante e uma narrativa envolvente. Apesar de alguns deslizes, como a IA dos inimigos e a repetição excessiva de tutoriais, o jogo mostra que não é preciso ter um orçamento astronômico para criar algo memorável.
É uma grata surpresa que reforça a importância da criatividade e da paixão no desenvolvimento de jogos. Estou ansioso para ver o que a River End Games nos trará no futuro.
Veredito: Eriksholm: The Stolen Dream entrega uma experiência cativante com narrativa sensível, ambientação memorável e gameplay estratégico. Apesar de repetir tutoriais e falhar na IA, o jogo surpreende pela qualidade, mesmo com equipe reduzida e orçamento modesto. – João Antônio
Recebemos Eriksholm: The Stolen Dream gratuitamente para review e agradecemos à River End Games pela confiança.










