Desde seu anúncio, Marathon recebeu uma certa rejeição por se tratar de mais um live-service no portfólio da PlayStation. Desenvolvido pela Bungie, conhecida por Halo e Destiny, Marathon é o retorno do estúdio a uma franquia que ela criou antes de se tornar popular.
Descrito como um jogo de tiro de extração, Marathon (2026) passou por diversas turbulências após seu lançamento, que aconteceu no dia 5 de março de 2026 nas plataformas PC, PS5 e Xbox Series. Dito isso, após as idas e vindas, comparações e uma torcida o rotulando como um novo Concord, o Combo Infinito teve a oportunidade de jogar Marathon por diversas horas, e eu lhe direi se o novo shooter da Bungie é tudo isso mesmo.
Mais uma aula de história Sci-Fi


A Bungie tornou-se uma grande referência em criar histórias de ficção científica. Halo e Destiny, por exemplo, são experiências narrativas incríveis dentro deste gênero, mas todo esse “molho” veio muito antes de conhecermos Master Chief e o Viajante. Na década de 1990, a Bungie criou uma franquia pouco conhecida, mas que serviria de pilar para o que passaríamos a conhecer a seguir. Estou falando de Marathon. Essa trilogia de jogos de tiro totalmente single-player criou fundações para o que este novo Marathon busca ser e entregar.
Pois bem, Marathon (2026), diferente da trilogia original, inicialmente possui apenas um conceito em que seus eventos se passam mais de um século após os eventos do primeiro jogo, quando a nave UESC Marathon ficou em órbita no planeta Tau Ceti IV, onde toda a expedição da nave desapareceu. No controle de Corredores (um total de sete), você deve explorar este planeta e descobrir o que aconteceu na nave UESC Marathon.
Embora tudo seja ambíguo e misterioso, isso é algo que a Bungie sabe fazer muito bem, vide os mistérios e o desenrolar ao longo de mais de uma década da franquia Destiny, que já se encontra em sua segunda saga.
Conexões?


Contudo, Marathon tem muito mais a esconder, pois não se sabe quais são as reais ligações com a trilogia original, embora um detalhe faça com que este novo jogo se passe após os eventos da trilogia e passe a contar os eventos que não foram esclarecidos no primeiro jogo. Bem, tudo isso é dedução minha após ler os códices e interpretar o contexto visual que a Bungie quis mostrar ao jogar dentro de Tau Ceti IV.
Diferente de Destiny e Halo, aqui você terá poucas animações, com exceção da introdução e de quando você desbloqueia uma nova facção. Tudo que vem a seguir em termos narrativos é interpretativo, e, particularmente, isso me cativou. É mágico quando uma obra te faz buscar entendimento em tudo que está ao seu redor sem que você seja guiado.
Uma hora ou outra você estará dando de cara com o logo de uma facção para a qual está trabalhando e pensa: essa facção está dominando esse território, mas por quê? Quais suas intenções? Quais são suas intenções aqui?
História contada através dos cenários
Toda essa dinâmica mental me deixou imerso neste universo que, aos poucos (propositalmente), irá se desenvolver e trazer respostas e definir o rumo da franquia.
Todo esse tom misterioso e a curiosidade sobre as ligações as ligações com a trilogia original são a engrenagem que me fez entender mais sobre os eventos aos quais fui inserido. Sem falar neste novo tipo de linguagem que envolve totalmente inteligência artificial. Embora Halo e Destiny tenham explorado este assunto, Marathon é totalmente dedicado e dependente deste segmento. Você não está controlando nenhum humano, mas sim um corpo feito de biomassa e sendo guiado por uma IA, que são líderes de cada facção. Cada facção é regida por uma inteligência artificial que possui um viés por trás e um interesse em Tau Ceti IV. Há uma facção chamada MIDA, que é vista como rebelde; há também a Arachne, que é uma facção vista como uma organização anti-vida e vê a morte como a salvação.


Tudo isso é fascinante, e parte desta fascinação está em sua estética, muito criticada, mas que me conquistou desde sua primeira aparição.
Minha única ressalva em relação à narrativa de Marathon (2026) é a falta de animações durante os diálogos com as IAs. Faltou mais capricho ou atenção nesta parte, que poderia ter contribuído para dar mais carisma a cada uma das seis facções presentes no jogo. Tudo parece muito voltado para tecnologia analógica, e a comunicação é feita com caixas de diálogo estilo RPG japonês.
Mostrar mais interação entre o Corredor e os líderes dessas facções tão diferentes e conflitantes as tornaria ainda mais marcantes do que já são com suas simples apresentações estáticas.
Um dos melhores visuais do ano


A Bungie já demonstrou sua criatividade em criar universos únicos através de seus visuais. Halo e Destiny dispensam comentários. Contudo, Marathon foi a única obra da Bungie que trouxe um divisor de águas para a comunidade e jogadores.
Essa decisão artística traz cores cruas e sem nuances dentro de uma tecnologia totalmente analógica, mesmo se passando em um futuro muito distante da realidade em que vivemos hoje, o que, para muitos, não faz sentido. Mas não precisa fazer sentido, apenas ser atrativo e marcante.
Marathon (2026) possui uma das melhores estéticas já vistas em um videogame e um dos melhores visuais e direção de arte do ano. Toda sua paleta de cores rasas e sem vida traz uma forte identidade a este universo desconhecido e misterioso. Você não verá Corredores realistas com expressões faciais marcantes, porque a humanidade não é o foco aqui.
A beleza na simplicidade
Cada canto de Tau Ceti IV traz uma sensação de tensão e descoberta graças à direção de arte que se esforça para mostrar ao jogador que ele está em um lugar hostil. Seja nos ambientes abertos ou nos interiores de instalações, o clima de tensão é evidente.
A Bungie conseguiu, através de um visual tão simples com cores uniformes, momentos de pura tensão que podem ser comparados a um survival horrornos momentos em que estamos explorando os mapas. Além disso, não posso deixar de contar sobre o belíssimo design de áudio que ajuda a entregar momentos tensos e frenéticos durante as partidas.
Muitas vezes você está tão concentrado explorando certos lugares que, às vezes, épassível de se confundir com os barulhos de seus próprios passos ou o som de uma cortina de plástico com os passos de um inimigo. Toda essa combinação de algo analógico com essas cores sem profundidade é o grande charme de Marathon, e que se tornou seu trunfo.
Um Sci-fi fora dos padrões


Tudo começa no menu de seleção e se estende para os visuais dos Corredores, na estética dos líderes das facções, no design das armas, dos equipamentos que usamos. Toda essa estética ultrapassada do padrão visual e estético das inúmeras obras sci-fi que já vimos deu a Marathon uma identidade única e marcante.
Cada mapa possui seu bioma, exceto o Posto Avançado e o CrioArquivo, onde ambos se passam, respectivamente, em uma instalação e na nave Marathon. Já o mapa Perímetro e o Pântano Lúgubre trazem mais nuances climáticas, como chuva, raios e ventania. Tudo isso ajuda a dar mais profundidade à ambientação e gerar riscos ao jogador.
Contudo, toda essa escolha também trouxe falhas. Algumas decisões nos menus e o tamanho da fonte são um problema conforme você se mantém preso no jogo. Mas isso não é algo impossível de se resolver.
Como está no PS5?
Minha análise aconteceu no PS5 base e estou impressionado com o excelente trabalho de otimização. Um detalhe: na versão para consoles há uma opção para mostrar o contador de FPS. Uma atitude que eu espero virar tendência para jogos em consoles. Em toda minha jogatina, seja em momentos de frenesi, calmos, em situações de chuva e de muitos efeitos, não presenciei quedas bruscas no FPS, e o jogo rodou impecavelmente bem. A iluminação, por sua vez, está formidável, mesmo para a versão de PS5 base.
A Bungie fez um excelente trabalho aqui. Vou me estender também para a versão de PC, a qual também tive acesso. Marathon possui progressão cruzada entre plataformas, e foi possível eu continuar minha jornada e ver como os gráficos do jogo estão no PC. Tudo parece melhor no PC em todos os aspectos, mas devo dizer que a versão de PS5 irá satisfazer os donos do console em termos visuais e de desempenho, que está cravado a 60 FPS.
Onde filho chora e a mãe não vê


É aqui que a diversão ou a frustração acontecem. Marathon não é um jogo convidativo e fácil. Tau Ceti IV é implacável, brutal e não quer que você descubra seus segredos. A flora e a fauna estarão unidas para lhe matar, além da presença de inimigos nos cenários, cuja IA entrega um desafio similar a um conflito comum com outro jogador. E para finalizar, ainda há os jogadores que estão disputando, assim como você, o melhor loot.
Diferente de todos os jogos de tiro de extração e do mais popular deles, ARC Raiders, Marathon é, de longe, o mais exigente. O gênero de extração por si só é exigente e uma experiência que passa longe do jogador casual. E com Marathon não será diferente, mas o jogo de extração da Bungie tem barreiras a mais. Como todo jogo deste gênero, você tem que ser desapegado aos bens materiais, porque, assim como um roguelike onde morrer faz parte do processo, em um jogo de extração perder seus equipamentos faz parte da progressão e você deve estar aberto a esta realidade durante horas de jogatina.
Um planeta implacável
Mas Marathon é muito mais punitivo, pois Tau Ceti IV não é apenas um lugar para você matar um jogador e sair com o loot dele. Este planeta tem muitas outras distrações além do jogador que está do outro lado do mapa. Conforme você explora em busca de novos equipamentos, sempre haverá torretas inimigas escondidas no cenário, inimigos controlados por IA, que são um tormento por sua dificuldade, mas também pela natureza hostil deste planeta.


Plantas venenosas muitas vezes serão uma das responsáveis por fazer você morrer envenenado, em vez de uma morte por um jogador adversário. E isso, por si só, é frustrante. Portanto, Marathon é um dos jogos de extração mais difíceis da atualidade, e confesso que fui fisgado por essa dificuldade. Esse masoquismo me fez entender melhor como agir, entender como explorar cada mapa e como funciona toda a dinâmica de seu gameplay.
Realize contratos e evolua
No controle de um dos sete Corredores (Destruição, Vandalismo, Reconhecimento, Assassino, Triagem, Rapina e Rook), os quais possuem habilidades e abordagens diferentes, você deve realizar contratos das 6 facções presentes do jogo em troca de melhorias, seja em armas, equipamentos e até cosméticos como visuais do Corredor. As diversas missões exigidas pelas facções estarão disponíveis em mapas específicos ou em qualquer um dos 4 mapas do jogo (Perímetro, Pântano Lúgubre, Posto Avançado e CrioArquivo). Realizar estes contratos aumentará o ranque com estas facções, o que lhe permitirá desbloquear recompensas que vão desde vantagens para o corredor até desbloquear compra de itens no Arsenal (a loja onde o jogador pode comprar equipamentos).
Cada uma das facções tem seu propósito narrativo, mas também tem um tipo de recompensa específica. Logo, o jogador poderá usar isso de forma estratégica para evoluir seu Corredor. Lembrando que você não estará limitado a um Corredor. Você pode jogar com qualquer um dos sete.
Embora as missões de contrato sejam muitas vezes sem muita criatividade, onde se baseiam em eliminar inimigos e conectar algo, elas são essenciais para a progressão do seu Corredor.
O DNA da Bungie está aqui
Em ação, Marathon traz todo o DNA da Bungie no que tange sua gunplay. Suas armas malucas, o confronto contra os inimigos controlados por IA e os jogadores é uma junção da parte PvE de Destiny com o segmento multiplayer do Crisol. E isso não há o que questionar.
A Bungie conseguiu criar duas experiências dentro de um único gênero com Marathon. Jogar em dupla ou em trio pelos quatro mapas do jogo é a experiência definitiva deste jogo, porém, quando você joga sozinho, esse shooter de extração se transforma em survival horror onde esconder ou avançar das forças inimigas trará consequências, além, é claro, dos jogadores. Diante de toda essa curva de aprendizado e escolha moral, em Marathon você tem a decisão de realizar seu contrato e extrair ou, se quiser, poder explorar mais o mapa em busca de mais recompensas. Mas não lhe garanto a certeza do sucesso.


Essa experiência muitas vezes frustrante traz consigo também uma alta dose de dopamina ao eliminar um jogador e roubar seu loot, e ao extrair. Se você se dispuser a vivenciar isso, Marathon é uma experiência incrível, mas eu tenho plena consciência do quão ele é seletivo. E parte desta natureza seletiva fará com que muitos jogadores casuais deixem de viver os segredos dos mapas Posto Avançado e do mapa CrioArquivo, a raid (incursão) dentro do jogo ao melhor estilo das raids de Destiny.
Dádiva para poucos
Toda a genialidade da Bungie está depositada nestes dois respectivos mapas que exalam um game design voltado para o jogador pensar e realizar puzzles com direito a uma boss fight. Contudo, isso não é acessível para o jogador casual e nem para o jogador que está no game devido à sua alta dificuldade e por ser um jogo de extração. Para vivenciar este ápice é preciso sobreviver aos demais jogadores e, assim, realizar todo o rito até a boss fight. Ou seja, poucos terão acesso à caixa de Pandora que Marathon reservou para esta primeira temporada.
O end game também traz uma abordagem interessante do seu sistema de prestígio. Aqui o foco está em experiências de alto risco e recompensa na nave Marathon, com destaque para o mapa CrioArquivo. Jogadores irão arriscar equipamentos caros em troca de loots exclusivos e recompensas de raridade única. A Bungie, por sua vez, planeja reinícios sazonais, forçando jogadores a refazerem o progresso e garantindo que o valor do loot de alto nível seja significativo. Por fim, o endgame também será responsável por desvendar mistérios da nave, com forte ênfase na história através de logs.
Algumas ressalvas
Em meio a isso, há também ressalvas importantes a pontuar. A demora para os itens surgirem quando se vasculha um inimigo ou recipientes é prejudicial. Essa demora deixa o jogador exposto em uma experiência bastante imprevisível.. No meu ponto de vista, não há necessidade de fazer todos os itens que você vai lootear surgirem aos poucos na tela. Poderiam estar todos lá, só esperando você pegá-los. Embora haja melhorias no Corredor que diminuam o tempo de aparição dos itens, é algo antiquado e desnecessário, em sua totalidade prejudicial.
Outro ponto é o exagero de itens presentes no jogo, que muitas vezes ocupam lugares que poderiam ser de outro item mais relevante. Mesmo você não sendo obrigado a coletá-los, você sempre ficará na dúvida se deve coletar ou não. Esses itens podem ser vendidos ou usados para desbloquear habilidades nas facções.
Marathon é um jogo frenético e que exige muita locomoção na maior parte do tempo. Contudo, a Bungie decidiu colocar uma barra de estamina, que, no jogo, representa a capacidade térmica do Corredor. Quando ela se esgota, você não consegue se locomover de forma rápida ou deslizar. Isso, em algumas ocasiões, em confrontos ou tentando escapar de tiros de uma torreta, tende a prejudicar o jogador.
Mas afinal, Marathon é tudo isso mesmo?
Marathon é uma ótima experiência em um gênero errado. Todo o brilhantismo da Bungie em seu gameplay, na narrativa e em toda sua direção de arte incrível guiada pelo seu visualestá inserido em um gênero que não é tão acessível. Jogos de extração são globalmente exigentes, mas Marathon eleva a fórmula. E o grande ápice desta experiência será limitado, até mesmo para quem está jogando. Eu espero que a Bungie traga um modo voltado para o PvE, pois há material para isso com seus inimigos controlados por IA bastante desafiadores.
Em resumo, Marathon é uma obra incrível, cativante, instigante, que me conquistou com seu universo e sua paleta de cores uniforme e seu design analógico. Mas eu tenho total consciência de que ele não é para todo jogador. E isso é uma pena.
É tudo isso mesmo?: Marathon (2026) entrega gameplay refinado, direção de arte única e um universo sci-fi intrigante, mas sua proposta como shooter de extração extremamente punitivo limita o alcance. A experiência é profunda e recompensadora, porém pouco acessível para jogadores casuais. Mas isso não o desqualifica. Pelo contrário, ele traz uma experiência incrível que não estará no radar de muitos jogadores pelo gênero que está incluso. – João Antônio










