Depois de se destacar com a experiência artística e musical de Artful Escape, a Beethoven & Dinosaur está de volta com um jogo totalmente novo, mas que carrega a identidade musical e artística característica do estúdio. Mixtape, desde seu anúncio, chamou a atenção por sua estética vibrante e colorida dos anos 90, guiada por um aspecto musical bastante persistente.
Totalmente focado na experiência narrativa, Mixtape chegou ao mercado no último dia 7 nas plataformas PC, PS5, Xbox Series e Switch 2, e para quem é assinante do Game Pass. Desta vez, com uma produção mais cinematográfica, será que a Beethoven & Dinosaur vai conseguir impressionar, assim como foi em Artful Escape?
O Combo Infinito jogou o título e eu lhe direi se Mixtape é tudo isso mesmo.
A rebeldia e as amizades que só o colegial é capaz de proporcionar


Mixtape conta a história de Stacey Rockford e seus dois grandes amigos, Cassandra e Slater, que estão prestes a dar adeus a tudo o que viveram durante o colegial. Porém, antes disso, eles planejaram ir a uma festa para selar o último dia em que estarão juntos na cidade e na escola em que viveram por anos. O motivo dessa despedida é porque Stacey vai viajar para Nova Iorque em busca de realizar seu sonho de ser supervisora musical.
Desta forma, o jogador assumirá o controle de Stacey enquanto a grande e última noite da vida desses três amigos se aproxima, ao mesmo tempo que memórias de tudo o que eles viveram também serão vivenciadas.
O elenco de Mixtape é impecável, e a grande estrela desta jornada nostálgica é Stacey, que ganhou vida com a voz da atriz Bella DeLong, da série Os Winchesters (2023). A interação de Stacey com o jogador, quebrando incessantemente a quarta parede através de sua jornada e apresentando sua playlist de despedida, é marcante. Não há como não criar um vínculo com a personagem e desejar tê-la como amiga. Mesmo com o destaque para Stacey, Cassandra e Slater não ficam de lado; esse trio possui uma excelente sinergia.
Mas do que uma história sobre adolescentes
Mas do que uma história sobre adolescente
A narrativa de Mixtape retrata fielmente o padrão do colegial americano, onde a rebeldia é o dogma que todo aluno irá seguir fielmente. E que, ao chegar à formatura, dilemas e indecisões se tornarão uma realidade, enquanto sair da cidade natal é inevitável e as amizades criadas se desfazem. Mixtape é sobre isso: as amizades que construímos e que, inevitavelmente, vão se desfazer com essa virada de chave na vida de qualquer ser humano, a vida adulta.
E mesmo que você não se identifique (assim como este que vos escreve) com a realidade retratada nessa fase das vidas destes protagonistas, Mixtape traz uma mensagem universal pela qual qualquer um já passou. As amizades que construímos no colegial ficaram no colegial. Aqueles amigos que te fizeram gostar de novas coisas e te fizeram ter uma fagulha de rebeldia nunca mais voltarão. E é sobre isso que Mixtape aborda.
A adolescência é algo que vivemos e jamais voltaremos a vivenciar. A jornada de Stacey, Cassandra e Slater me fez voltar ao colegial e às amizades que eu construí, embora com uma trilha sonora e em um lugar diferentes.
Em resumo, a narrativa de Mixtape é nostálgica não apenas de forma cultural, mas principalmente na forma sentimental, ao abordar um evento global na vida de qualquer ser humano. Minha única ressalva é por conta de sua duração. Terminei em 5 horas, e é porque costumo explorar muito; caso contrário, teria terminado em menos tempo. Prova disso são alguns takes das lembranças de Stacey que foram curtíssimos, apenas para prolongar a pequena duração desta jornada.
Qual a trilha sonora da sua vida?


A narrativa de Mixtape será guiada por uma playlist criada por Stacey. Ela é apaixonada por música e decidiu criar uma seleção para celebrar sua despedida na vida de Cassandra e Slater. Desta forma, conforme a história avança, seremos guiados e apresentados a músicas que combinam com o momento especial da história. E essa apresentação é tão cativante que, mesmo que você não conheça a banda nem a letra da música, a forma como o roteiro prepara esses momentos é adorável. Stacey é uma “expert” em trilhas sonoras e isso às vezes irrita, mas é o que a torna tão especial e madura para sua idade. Aprender com ela foi uma experiência que eu adoraria ter vivido na vida real.
Cada uma das trilhas sonoras é formidável aos ouvidos de quem estiver jogando Mixtape. Essa jornada audiovisual é perfeita e marcante do início ao fim, seja pelo seu roteiro totalmente adolescente, mas que aborda temas importantes, seja pela sua trilha sonora magnífica.
Se você ama história e música, Mixtape é um produto indispensável.
O vibrante e colorido anos 90


O visual de Mixtape é encantador. O jogo replica toda a magia dos anos 90 com as vestimentas, os aparelhos e até mesmo referências da cultura pop da época. A abertura do jogo é memorável, assim como alguns momentos marcantes que o jogo irá entregar conforme você avança.
Contudo, o grande destaque desta jornada e da escolha visual para este game é o mix entre os movimentos em stop motion da personagem com a fluidez das demais coisas em tela. Esse contraste visual não é nenhuma novidade, pois já vimos em South of Midnight, porém Mixtape possui um carisma maior por conta de sua temática.
Mixtape é um musical dentro de um videogame e seus momentos gloriosos elevam o elemento visual de forma espetacular, seja com fogos de artifício, seja por um momento que simboliza ira, ou enquanto você está acertando tacadas em um campo de golfe, ou quando você está em uma corrida para salvar sua amiga. Todos esses momentos entregam um valor visual, musical e sentimental inesquecíveis.
Você não estará diante de um visual realista; todo o design pontiagudo com traços finos e leves dos personagens tem o seu charme.
Você só assiste ou joga algo?


Há uma linha muito tênue para os jogos narrativos no que diz respeito a proporcionarem momentos de gameplay ou não. Um game totalmente voltado para a narrativa não precisa necessariamente trazer um gameplay com mecânicas de movimento ou afins; afinal, sua proposta é simplesmente contar uma história. Os jogos da Telltale Games, que se tornaram hits de sucesso na década passada, trouxeram experiências narrativas marcantes onde o único mecanismo de gameplay era a movimentação e o sistema “point and click” para interagir com objetos nos cenários. Contudo, hoje há uma cobrança extremista acerca de gameplay para jogos deste segmento.
Um exemplo interessante da inserção de gameplay em jogos narrativos está nos jogos da Supermassive, que se tornaram um padrão por conterem um gameplay desenvolvido com mecânicas, mesmo que a experiência no geral seja sofrível para alguns. Na contramão deste padrão, Dispatch, no ano passado, chegou para dizer que este gênero de game não precisa de tudo isso. O que se precisa é de mecânicas que complementem a narrativa, e não que sejam um segmento independente dentro de toda a experiência do jogo.
E Mixtape?
Pois bem, isso nos leva a Mixtape, que desde seu lançamento vem sendo bombardeado por críticas acerca de seu gameplay, sob a afirmação de que é possível finalizar o jogo sem usar o controle.
Assim como em Dispatch, Mixtape usa seu gameplay para expandir sua narrativa e não fazer o jogador esquecê-la em momentos longos e com mecânicas complexas. Todos os momentos que envolvem gameplay no jogo exigem do jogador ações simples, no intuito de que esses momentos sejam de contemplação para um evento marcante para a narrativa, ao invés de momentos de frustração e diversos “game overs”. Essa não é a intenção de um jogo narrativo. E, mesmo assim, há takes do jogo onde, se você não conseguir desviar de um carro na contramão com seu skate, o jogo retrocede ao momento anterior à colisão para você evitar o acidente.
Portanto, Mixtape possui sim gameplay, mas essa alegoria está inserida para dar vida a momentos de clímax de pura contemplação. Decidir dar ao jogador o controle em uma sessão onde a protagonista sai correndo pelas ruas de sua cidade e cruzar um estádio de beisebol me entregou um dos momentos mais marcantes e encantadores dentro de um jogo este ano.
Veredito
A Beethoven & Dinosaur conseguiu, mais uma vez, encantar com sua experiência narrativa, visual e musical. Mesmo com uma história sobre adolescentes que se aproximam do começo de um novo ciclo de suas vidas, Mixtape é um grito nostálgico aos ouvidos de quem o joga, remetendo a um dos momentos de grandes descobertas das nossas vidas: o colegial.
Toda essa narrativa ganha força através da musicalidade, dos temas abordados e por seu visual tão marcante. Se você é um fã de histórias e de musicais, Mixtape é um produto indispensável. O único problema desta playlist é sua duração. Mesmo com uma precificação bem acessível, sua experiência é curta.
É tudo isso mesmo?: Mixtape é uma celebração audiovisual da nostalgia e da transição para a vida adulta. Com um visual vibrante e uma curadoria musical impecável, o título compensa sua curta duração com momentos de pura contemplação e carisma. Uma experiência indispensável para fãs de boas histórias e musicais. – João Antônio











