Poucos diretores têm a autonomia e a liberdade de criar seus universos sem medo de pôr em prática tudo o que há em suas mentes criativas. Nomes como Hideo Kojima e Sam Lake, por exemplo, são alguns dos poucos diretores de games que empurram a indústria para frente com suas ideias malucas, complexas e artísticas.
Mas, dentro deste grupo, há outro nome que se tornou conhecido por fazer videogames como um grande entretenimento, que diverte com piadas e mecânicas criativas. Estou falando do Goichi Suda, o Suda51. Após entregar o terceiro título da franquia No More Heroes, Suda51 retorna aos games para entregar seu mais novo trabalho, Romeo is a Dead Man.
Como uma espécie de sucessor espiritual de No More Heroes, Romeo is a Dead Man chega ao mercado em 11 de fevereiro de 2026 nas plataformas PC, PS5 e Xbox Series e é mais uma obra maluca de Suda51. Se você é fã das obras do diretor, este novo jogo tem o tom, a dosagem e a sua assinatura. Afinal, Suda51 é o criador, roteirista, diretor e produtor de Romeo is a Dead Man.
Dito isso, será que Romeo, em sua jornada espacial, será capaz de desbancar o carisma de Travis Touchdown e a franquia anterior do diretor? Confira mais uma análise do Combo Infinito e descubra se Romeo is a Dead Man é tudo isso mesmo!
Romeo é um homem morto


A história começa quando o espaço-tempo é fragmentado por um determinado incidente. Romeo, que fica à beira da morte, acaba sendo ressuscitado por seu avô por meio de um novo tipo de super tecnologia. Ele então é recrutado pela Polícia do Espaço-Tempo do FBI como um agente especial, passando a vagar pelo cosmo em busca de criminosos que tiraram proveito desse caos e também eliminando zumbis (tudo para trazer justiça de volta ao universo). Ao mesmo tempo, ele tenta procurar pistas sobre sua namorada desaparecida, Julieta.
Romeo is a Dead Man é uma nova IP da Grasshopper Manufacture após anos se dedicando à franquia No More Heroes. E devo dizer que essa história e o mundo criado por Suda51 são os mais malucos de sua carreira. Apostando, desta vez, na temática da viagem no tempo, o título faz jus a muitas influências da cultura pop, e a maior delas é De Volta para o Futuro. Enquanto No More Heroes tem uma narrativa mais linear, Romeo is a Dead Man é uma bagunça narrativa, com diversas viagens para eras do passado e do futuro, enquanto, no meio disso, os eventos do presente vão se completando. Desta vez, tudo é interpretativo e nada fará sentido em grande parte do jogo. E nem no final.
Confusa, mas cativante
Toda essa jornada espacial é cômica, cafona e divertida, como manda a cartilha do diretor. A forma como Suda51 conta suas narrativas é peculiar, e Romeo is a Dead Man herdou isso. Personagens estereotipados, uma personagem que é uma sátira às IAs burras de NPCs nos jogos.
Em meio a toda essa loucura narrativa, com idas e vindas pelo tempo, Romeo is a Dead Man também é uma paródia da grande obra de Shakespeare: Romeu e Julieta, porém se passando no espaço.
Em resumo, a jornada de Romeo quebrando o espaço-tempo é uma salada de inspirações e momentos únicos vindos da mente maluca de Suda51, com direito a um musical ao melhor estilo Alan Wake 2 e a uma variedade de cinemáticas com diversos estilos visuais. Por fim, a trilha sonora é um show à parte. Todas as trilhas presentes no gameplay e nas boss fights vão grudar que nem chiclete na sua mente.
Fazendo jogos dentro do jogo


Suda51 se tornou conhecido por sua genialidade, não apenas na forma cômica de contar suas histórias, mas também em criar jogos dentro de seus próprios jogos. Com Romeo is a Dead Man isso ganhou um novo nível. Aqui você jogará com visuais e ambientes em 3D, mas também em 2D pixelado e de forma isométrica. E essa versatilidade na forma de fazer o jogador jogar sua obra é o que as torna tão marcantes e únicas.
Além das inúmeras perspectivas de gameplay, Suda51, desta vez, ousou mais. As mecânicas de Romeo is a Dead Man mostram que o diretor ainda está com a mente criativa afiada. Romeo possui atributos que podem ser evoluídos conforme você avança no jogo. Mas aqui a maneira como você evolui os atributos do personagem é atípica e genial.
Através de um mini jogo, que lembra bastante o labirinto de Pac-Man, você controla um veículo e deve trilhar um caminho coletando ícones que representam os atributos de Romeo. Coletar os ícones aumentará o nível dos atributos do personagem, mas também gastará o combustível (a XP que Code acumula no jogo) do veículo. Genial, não é?
E não para por aí. É possível cultivar zumbis (você não leu errado), evoluí-los e usá-los como uma extensão do seu arsenal. Você também pode criar comidas com diversos rankings para seu uso próprio.
E o gameplay?


Enquanto as mecânicas criativas são o grande charme desta experiência, o gameplay também respira influências de diversas franquias consagradas. Romeo is a Dead Man, em alguns momentos, é Dead Rising com No More Heroes, ou No More Heroes com zumbis. Além disso, é também um survivor horror bastante parecido com The Evil Within. Em relação a este último, eu cogito até um envolvimento ou consultoria de Shinji Mikami em uma determinada missão do jogo que se passa em um manicômio.
Ele é também um excelente hack and slash com elementos de Souls, onde, após salvar, os inimigos retornam. Falando em retornar, toda vez que você morre pode girar uma roleta para escolher com que vantagens voltará após a morte. Você poderá voltar com mais ataque, com maior absorção de sangue para usar o especial, com maior defesa ou simplesmente ressuscitar de onde parou na boss fight.
As consequências de viajar no tempo


O combate de Romeo is a Dead Man é uma mescla de No More Heroes com o uso de armas de fogo. Com um total de quatro armas de fogo e quatro espadas (o que achei pouco, por sinal), você é capaz de evoluí-las durante o jogo. As combinações dos golpes das armas brancas com o uso dos zumbis e os especiais são empolgantes e funcionam bem. Executar o especial e eliminar os inimigos, vendo a tela ficar em câmera lenta, é muito satisfatório. Essa qualidade no combate é algo herdado de No More Heroes e que Romeo is a Dead Man manteve e executou bem.
Embora o combate seja gostoso e empolgante, há um grande reaproveitamento de inimigos durante a progressão, e isso se estende às masmorras que você explora no jogo, que, embora procedurais, mantêm a mesma estética. Além disso, o combate sofre com problemas de câmera, principalmente quando ela está travada no inimigo. Infelizmente, ela não consegue acompanhar os movimentos dos inimigos, o que acaba prejudicando a dinâmica do combate.
Problemas de desempenho
Outro ponto negativo no jogo está no design de missões. Durante toda a jornada de Romeo pelo espaço-tempo você vai explorar a realidade real, mas também visitará o subespaço, onde conseguirá acessar áreas não acessíveis na realidade real. Nesta realidade não há confronto, somente um cenário para explorar e achar chaves para abrir um portal que vai te levar ao boss da missão. No início a ideia faz sentido para o contexto da narrativa, mas, com o passar das horas, essa dualidade de gameplay se torna tediosa, prolongando o tempo de missão do jogo. E pior, a progressão não é intuitiva nem divertida.
Por fim, minha análise aconteceu na versão de PC do jogo, e ele se mostrou bastante problemático em desempenho técnico. O jogo sofre com constantes quedas de FPS em cinemáticas e em telas de carregamento. A presença do frame generation não foi capaz de mitigar as quedas, além dos problemas de stuttering oriundos da Unreal Engine 5. O ponto crítico desse problema aconteceu em um momento próximo do final do jogo, quando as cinemáticas de corte e as cenas in-game caíram para 4 FPS, impossibilitando, assim, meu progresso.
Mas afinal, Romeo is a Dead man é tudo isso mesmo?
Após a subida dos créditos e analisar toda essa experiência com Romeo is a Dead Man, me questionei se a criatividade e a arte por trás da obra contam mais do que os problemas existentes.
Romeo is a Dead Man tem problemas de game design e problemas técnicos acentuados, mas a forma como essa experiência se apresentou, mediante suas ressalvas, me fez rir e me encantar mais uma vez com a genialidade de Suda51.
Romeo is a Dead Man está longe de ter o carisma de No More Heroes, mas posso dizer que vivi mais uma vez o mundo de Suda51, com suas imperfeições, mas também com toda sua glória.
Veredito: Romeo is a Dead Man entrega uma experiência insana e criativa com a assinatura de Suda51. Apesar dos problemas técnicos e de design, o jogo diverte com combates empolgantes, sátiras da obra de Shakespeare no espaço, múltiplos estilos visuais e mecânicas excêntricas. – João Antônio










