Vampire: The Masquerade – Bloodlines, título lançado em 2004, é um dos melhores RPGs de vampiros que já joguei na vida. Sua importância dentro do gênero dos RPGs lhe rendeu uma coroa de jogo cult que merecia uma sequência.
A existência de uma continuação nasceu em 2019, com o desenvolvimento da Hardsuit Labs e publicação da Paradox Interactive, a detentora da marca. O anúncio despertou os amantes adormecidos do game original, como este que vos escreve, gerando uma alta expectativa entre os fãs.
Desta forma, após adiamentos e mudanças de estúdios, finalmente Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 chegou ao mercado em 21 de outubro nas plataformas atuais (PS5, Xbox Series e PC), envolto em dúvidas e com um grande desafio: atender às expectativas dos fãs do game original, após uma longa espera marcada por adiamentos e mudanças de estúdio, o que gerou dúvidas e insegurança.
Confira mais uma análise do Combo Infinito e descubra se Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 é tudo isso mesmo.
Um vampiro no século 21


O começo de VTM: Bloodlines 2 é uma grande quebra de expectativa para os fãs do game original. Sem uma construção profunda de personagem como no primeiro jogo, lançado há duas décadas, que possibilitava a criação de um personagem com a escolha do sexo (masculino ou feminino), nome e características físicas, mentais e sociais através da distribuição de pontos, a continuação mantém apenas a escolha do sexo do protagonista, mas descarta toda a complexidade que um bom RPG possui. Em vez disso, Bloodlines 2 traz a opção de escolher apenas o clã do protagonista. Um detalhe: no jogo você não cria seu personagem, ele já vem pré-determinado e com nome pronto, Phyre.
Esse início mostra que essa sequência não é nada do que eu (e nem os fãs) estávamos esperando. Mas há algo que se salve.
O jogador controla Phyre, um vampiro que já ultrapassou os 100 anos e acorda em uma Seattle do século 21 sem saber como veio parar neste lugar. Além disso, Phyre possui uma marca desconhecida em sua mão direita e uma voz misteriosa em sua mente. Confuso, ele parte em uma jornada por Seattle, conhecendo esta nova realidade, em busca de respostas sobre seu despertar, a marca em sua mão e a voz de outro vampiro que habita sua mente.
Péssimos diálogos e personagens esquecíveis


Abordando temas atuais, Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 traz uma nova visão moderna, expondo como se tornou difícil não “quebrar a máscara” (ou seja, proteger as identidades dos vampiros) no século 21 com o advento da tecnologia, a presença de câmeras em celulares e o uso da nuvem. Além disso, também é abordado como o entendimento dos humanos sobre os vampiros evoluiu através de literaturas que criaram novos conceitos sobre a raça.
Conforme você avança e conhece novos personagens, presencia a dinâmica entre Phyre e a voz misteriosa em sua mente, chamada Fabien. Essa interação em descobrir o passado de Fabien e o motivo do surgimento da marca em Phyre pauta toda a trama de Bloodlines 2. A grande problemática desta nova história é a falta de carisma dos mesmos. Seus momentos de interação se destacam por diálogos fracos, tornando esses personagens (que assumem o front da narrativa) esquecíveis e desinteressantes.
Mesmo assim, VTM: Bloodlines 2 consegue apresentar a mitologia dos vampiros de forma bem detalhada, com o uso de termos dessa sociedade, como o “Senhor” de cada vampiro (aquele que morde um humano), a “quebra da máscara” e os clãs. Tudo isso ganha vida de maneira compreensível tanto para quem já conhece quanto para quem é novo nesse universo.
Trilha sonora boa, mas…
Bloodlines 2 possui uma trilha sonora que atende bem à temática vampiresca, com um voice acting que mescla entre boas atuações e outras bem amadoras. Parte desse problema está em falhas de lip sync e em expressões faciais pouco críveis de seus personagens durante as cinemáticas.
Esta sequência é o reflexo de muitas mudanças, sobretudo de investimento, que não foi alto. A falta de profundidade no elemento que tornou esta franquia conhecida – a narrativa – e na criação de um personagem com escolhas prévias, presente no game de 2004, é a evidência de que este projeto careceu de investimento.
Uma Seattle coberta de neve, e só


Depois de uma longa sessão de tutorial, Phyre é apresentado à Seattle dos dias atuais, coberta de neve e repleta de néon com seus letreiros psicodélicos. Com um mapa discreto, repleto de altos prédios e becos, você estará diante de humanos que poderão ser seu alimento – ou não.
Essa dinâmica de escolher se alimentar ou não dos humanos é algo interessante e serve como uma alternativa para herdar habilidades de outros clãs. A grande questão é como esses humanos estão disponíveis. Caso você opte por beber o sangue deles, é necessário agir de forma discreta; porém, esses humanos quase sempre estão alocados em locais inviáveis. Além disso, o jogo nem faz questão de criar uma rotina para essas presas, o que impediria o jogador de usar estratégias ao atacá-las.
Além dessa atividade secundária e totalmente opcional, Seattle lhe reservará colecionáveis que rendem pontos de habilidade, bem como missões secundárias, e nada mais. Falta conteúdo no mapa, mesmo sendo pequeno em comparação com outros jogos. Outro ponto é a falta de primor na hora de dar vida aos NPCs presentes na cidade. Ela só se torna reativa quando você é detectado ao tentar beber o sangue de algum civil ou é visto matando carniçais. Fora esses eventos, não há nada orgânico ou natural na cidade. Seattle é uma cidade “mortal” e sem vida, coberta de neve e iluminada por néon.
Quedas de FPS e falta de otimização
Além disso, explorar as ruas de Seattle traz sérios problemas de desempenho. Rodando em uma RTX 4070 Super, presenciei diversas quedas de FPS, mesmo optando por usar frame generation. São quedas bruscas e constantes de taxa de quadros, dentro de um visual nada complexo — mais um exemplo negativo de jogos que usam a UE5. É perceptível a falta de otimização, o que prejudica bastante a experiência, principalmente nas ruas de Seattle.
Saindo da cidade, Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 possui uma estética interessante, com figurinos que representam muito bem cada um dos clãs presentes no jogo. Isso é bem desenvolvido, pois não é preciso que algo te avise a qual clã pertence determinado personagem, sua vestimenta revela isso. Os inúmeros NPCs têm um charme próprio em suas roupas, e conhecer cada um deles e seus respectivos clãs é uma viagem às tradições dessas famílias que dominam Seattle — e é a parte mais marcante e profunda do jogo.
Faltou profundidade


Um dos trunfos de Vampire: The Masquerade – Bloodlines é sua profundidade como RPG. As escolhas iniciais, desde a criação do personagem com todas as características físicas, mentais e sociais, moldavam toda a experiência. Bloodlines 2 provou não ser nada disso e acabou se tornando um jogo raso e genérico, que mais parece um RPG de ação do que um RPG como foi seu antecessor.
O combate do jogo se resume a confrontos corpo a corpo desajeitados, com problemas de câmera. Não há a versatilidade de abordagem à distância, em primeira pessoa, e o corpo a corpo em terceira pessoa do primeiro jogo. O que torna o combate interessante são as habilidades que cada um dos clãs possui. Elas servem como uma extensão do combate raso e sem profundidade que Bloodlines 2 apresenta.
Como falei anteriormente, você pode adquirir habilidades de outros clãs se atender a certos requisitos, como uma quantidade específica de pontos de habilidade e pontos de sangue ao atacar certos civis. Ter acesso a habilidades que não pertencem ao seu clã oferece uma versatilidade ao combate, que sofre por sua trivialidade. Usar o poder de controle dos Ventrue contra inimigos ou a manipulação do sangue dos Tremere tem seu valor e consegue dar algum brilho às batalhas.
Com um combate raso, Bloodlines 2 não traz nenhuma profundidade ou complexidade, o que faz esta sequência destoar e ficar muito abaixo do game original. No final do dia, Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 não é nada daquilo que esperei como sequência do clássico cult e influente título de 2004.
Mas afinal, Vampire: The Masquerade Bloodlines 2 é tudo isso mesmo?
Portanto, esta sequência deixa de lado a profundidade e as nuances de um RPG para apostar em algo já definido, sem muitas escolhas alternativas. As escolhas nos diálogos estão de volta, mas não têm o peso nem trazem as possibilidades oriundas das escolhas prévias da criação do personagem.
Em resumo, Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 é um milagre após todo o seu tempo de desenvolvimento, marcado por atrasos e mudanças de estúdio. Contudo, após toda essa longa espera, a continuação não herda nada de seu antecessor, configurando-se mais como um reboot da franquia do que uma sequência de fato.
Se foi por falta de orçamento ou por mudanças de direção ao longo do desenvolvimento, a verdade é que a espera não atendeu às expectativas, e nem ao legado, de seu antecessor.
Veredito: Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 não herda nada de seu antecessor e se apresenta com um reboot raso e problemático tecnicamente. Uma sequência que demorou anos e que não atendeu a longa espera. – João Antônio
Recebemos Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 gratuitamente para review e agradecemos à Paradox Interactive.










