Silent Hill f despertou bastante curiosidade em seu anúncio. A mais nova entrada da franquia em mais de uma década não seria ambientada em uma cidade fictícia no Ocidente. Desta vez, o jogo se passaria no Japão, durante a década de 1960. Entre surpresa, expectativas e desconfianças, principalmente pelo estúdio responsável pelo projeto, a Neobards Entertainment, conhecida por títulos pouco memoráveis como Resident Evil Re:Verse (2022) e Resident Evil: Resistance (2020), Silent Hill f conquistou aos poucos a atenção dos fãs saudosistas da franquia e também dos amantes de survival horror.
A grande espera acabou: Silent Hill f chega ao mercado em 25 de setembro de 2025 para PS5, Xbox Series e PC, com a imensa responsabilidade de marcar o retorno inédito da franquia, que passou tanto tempo no esquecimento.
Será que Silent Hill f atenderá às expectativas e honrará o legado da série?
A resposta é: sim. Silent Hill está de volta, e f conseguiu não apenas resgatar o terror característico da franquia, como também elevou o nível do que significa ser um jogo de horror dentro do gênero. Mas vamos por partes.
Névoa no Japão?


A história de Silent Hill f se passa na pacata e isolada cidade de Ebisugaoka. A protagonista, Hinako, sai de sua casa para ir ver seus amigos, a qual tem uma forte relação de amizades há anos. Porém, uma névoa misteriosa invade toda a cidade e coisas misteriosas e aterrorizantes começam a surgir. Assim, Hinako se separa de seus três amigos: Shu, Sasuko e Rinko, e parte em uma jornada para encontrá-los e sobreviver aos acontecimentos sobrenaturais presentes na cidade.
Como um grande fã da franquia e quem jogou todos os jogos, Silent Hill 2, na minha humilde opinião, é o melhor jogo da franquia, inclusive sua narrativa. O enredo por trás do que está acontecendo na cidade ser materializado em traumas, arrependimentos e desejos de James, reflexo de sua mente perturbada, é algo genial. Contudo, vou confessar que mudei de opinião.
Silent Hill f conseguiu me cativar, me impactar e deixar apreensivo do começo ao fim. Embora sabendo da potência narrativa de SH2, SHf conseguiu adentrar em terrenos tão sensíveis e cruéis sem medo de mostrar as consequências de uma realidade tão tangível em nosso cotidiano.
Em sua narrativa, Silent Hill f usa a figura tão importante dentro da franquia, a névoa, como uma desculpa ou uma distração para externar tabus que ainda hoje tem seus vertigios.
Silent Hill f quase foi ambientado na “cidade real”, mas um detalhe mudou tudo
De fato, há muito mais sendo exposto, é algo “sem papas na língua”. Assim, Silent Hill f é corajoso em explorar a repressão feminina, assédio, abuso e o machismo (algo bastante persistente no período em que o jogo se passa), tudo apresentado da forma mais chocante possível. Você não está preparado para o que Silent Hill f vai te entregar narrativamente. A história é chocante e de partir o coração, com muitas cenas gráficas e mortes sensíveis.
Inimigos como reflexo da personagem


Assim como em Silent Hill 2, onde os inimigos refletiam os desejos e traumas de James (como as icônicas enfermeiras), Silent Hill f vai além ao materializar as visões distorcidas de Hinako sobre os homens da época.
Um exemplo marcante é um inimigo que possui diversas cabeças no corpo e uma abertura em forma de boca na região da cintura, cuspindo sangue ácido em movimentos sugestivos. É grotesco, incômodo e proposital, mostrando a visão de Hinako sobre como as mulheres eram vistas: objetos sem voz ou direitos, destinados apenas ao casamento e à servidão.
Sob a escrita de Ryukishi07, conhecido por visual novels que alternam entre cenas macabras e humor de estudante. Para ele (Ryukishi07), uma história deve ser como uma montanha-russa. “Antes de escrever uma cena realmente cruel, tenho que elevar o ânimo do povo, por exemplo, com uma cena divertida … antes de escrever uma cena de puro desespero, devemos passar por cenas de esperança.”
Silent Hill F terá locais opcionais e puzzles desafiadores
E Silent Hill f herdou todo este DNA. A mais nova entrada da franquia vai brincar com seu psicológico e emocional, enquanto revela detalhes que as cinemáticas não abordam e nem se preocupam em explicar. Pelo contrário, de forma proposital você estará se perguntando, refletindo e tirando conclusões. Mas, de forma engenhosa e respeitando os princípios da franquia, Silent Hill f utiliza dos elementos secundários da narrativa, os documentos, como informações relevantes para te dar contexto. Além disso, Hinako possui um caderno onde registra cada nova descoberta sobre monstros, locais e personagens.
Um terror culturalmente japonês


O que mais me impressionou em Silent Hill f foi a forma como ele conecta os temas pesados da narrativa à cultura japonesa, transformando Silent Hill em algo mais que uma cidade amaldiçoada. Agora, é um fenômeno, um estado mental, ao invés de ser apenas uma cidade onde se cultua o capiroto. Assim, se você ama as tradições, os mitos e a cultura em si, Silent Hill f será uma viagem cultural aterrorizante.
Em adição, a trilha sonora com a trilha sonora de Akira Yamaoka, é impecável. As notas trazem um tom agonizante e desesperançoso que chegam a incomodar. De fato, temos aqui um trabalho excelente do time da Neobards. E, além da trilha sonora, o design de som complementa a atmosfera, tornando até a decisão de correr arriscada, pois o grunhido das criaturas são um alerta de que você poderá ser surpreendido.
Apesar de não contar com dublagem em português do Brasil, o jogo possui legendas e interface em PT-BR, além de algo raro: algumas das músicas dos créditos finais também foram legendadas, ajudando a compreender a narrativa. Uma aula de acessibilidade e localização, em contraste com títulos recentes que ignoraram esse cuidado – não é mesmo, South of Midnight?
Silent Hill f é o primeiro jogo da franquia para maiores de 18 anos no Japão
No geral, Silent Hill f entrega a melhor história já contada na franquia e se consagra como uma das narrativas mais marcantes do ano. Se ainda existia dúvida sobre o retorno do terror, prepare-se: você não estará pronto para o que vem pela frente. E, caso consiga chegar ao final, haverá motivos de sobra para revisitar o jogo. A trama de Silent Hill f tem o poder de instigar, de fazer você querer descobrir o que permanece oculto.
Não é um Souls, mas você não terá vida fácil


Um grande debate surgiu na internet quando as prévias de Silent Hill f revelaram que ele teria um sistema de combate com elementos Souls, gênero criado pela FromSoftware. Adotar elementos não é ser igual, mas sim adaptar esses aspectos populares ao contexto do seu game. Esse é exatamente o caso de Silent Hill f.
Hinako possui ataques leves e pesados, esquiva e corrida, todas essas ações consumindo estamina, algo característico do gênero Souls. Porém, Silent Hill f está longe de ser um Soulslike ou mesmo um Soulslite, como muitos pregaram. Ele é mais desafiador!
Diferente dos títulos anteriores da franquia, com exceção de The Short Message (2024), o jogador terá à sua disposição apenas armas brancas, sejam elas cortantes ou contundentes, como canos e marretas, por exemplo. Esse simples detalhe já torna o combate desafiador, pois, dependendo da arma escolhida, Hinako sentirá o peso dela. Seus ataques são mais rápidos com uma foice ou uma faca, mas a mesma agilidade não se aplica quando se utiliza uma marreta ou um machado. Além disso, Hinako ainda pode potencializar seus golpes ativando o foco e, com esse mesmo recurso, contra-atacar os inimigos.
Silent Hill f é Souls-like ou não? – Opinião
O combate de Silent Hill f é cadenciado e altamente estratégico. Se você tentar abordá-lo no estilo Souls, abusando de esquivas e ataques constantes, será rapidamente dominado pelos inimigos. Esse senso de cuidado e vulnerabilidade é o que torna o sistema de combate tão único e pessoal para a protagonista.
A estratégia é a chave


Se Silent Hill f não tivesse o consumo de estamina, perderia grande parte de seu charme, já que a tensão e o cuidado em cada golpe ou esquiva seriam anulados. A cada ataque é possível sentir o peso do impacto e ouvir o som dos golpes, o que torna a experiência extremamente satisfatória ao eliminar as criaturas do jogo.
Enquanto a premissa do combate se destaca, algumas decisões acabam prejudicando a experiência. O sistema de luta de Silent Hill f não é perfeito, mas poderia ter sido. Em um jogo onde cada ação consome estamina, o balanceamento entre o gasto de vigor e o tempo de recuperação precisa estar em sintonia, caso contrário, as próprias ações do jogador se tornam sua pior punição.
E é exatamente isso que o combate de Silent Hill f entrega ao jogador. O alto consumo de estamina ao esquivar, somado à demora excessiva para a regeneração, soa antiquado e acaba prejudicando de forma desleal, especialmente em momentos cruciais, como confrontos contra chefes ou inimigos que desferem sequências de golpes.
Afinal, como desviar de cinco ataques de um inimigo se em duas esquivas a estamina acaba? E como tentar escapar do próximo golpe se a barra de estamina é uma eternidade para regenerar? Como escapar ao ser atacado por mais de uma criatura?
Silent Hill f tem duração da campanha revelada
Essas situações acabam manchando o combate de Silent Hill f. O custo excessivo de estamina até pode ser contornado com o aumento do vigor ao longo do jogo. Porém, a decisão de retardar a recuperação dessa barra prejudica o gameplay e se tornou a principal fonte da minha frustração durante os combates.
Uma alternativa para aliviar essa sensação em determinados momentos é o uso do foco, que potencializa os ataques e permite contra-atacar os inimigos. Diferente da estamina, essa mecânica consome a barra de sanidade, e é justamente aqui que o sistema brilha. Mesmo com os problemas já citados, o foco se mostra um destaque positivo quando o jogo não força o jogador a enfrentar situações inviáveis com as condições limitadas que oferece.
Em resumo, o combate de Silent Hill f é uma mistura entre satisfação e frustração. Funciona bem em certos momentos, mas em outros simplesmente não deveria existir da forma como foi implementado.
A beleza no horror


Uma citação constantemente mencionada pelos desenvolvedores de Silent Hill f é: “A beleza no horror”. Essa frase não foi escolhida por acaso. O terror japonês, diferente do ocidental, é amplamente reconhecido por tratar o medo de forma mais artística do que apenas explorar o gore em tela.
Silent Hill f incorpora esse DNA com uma ambientação espetacular, tornando impossível não se encantar com o horror presente em Ebisugaoka. Ao contrário dos títulos anteriores da franquia, marcados por cenários sujos e agonizantes nas realidades alternativas, aqui não há uma atmosfera claustrofóbica. O horror se manifesta na construção detalhada do ambiente, que continua sendo tenso e perturbador, mas ao mesmo tempo belo e marcante
Mas não se engane: Silent Hill f sabe ser grotesco e assustador quando necessário. Os momentos de susto aparecem na medida certa, e os cenários existem para potencializar a imersão e se destacarem visualmente. O jogo alterna entre a cidade e um santuário, ambos oferecendo contexto narrativo e direções de arte impressionantes – especialmente no santuário, onde a cultura, os mitos e as lendas japonesas ganham mais espaço.
Além disso, há inimigos específicos para cada local. Ainda que o jogo recicle algumas criaturas entre cidade e santuário, a variedade apresentada é suficiente para manter o jogador engajado.
Santuários


Toda essa ambientação bela e marcante se desenrola em um mapa da cidade mais aberto, que oferece uma boa dose de exploração, incluindo a visita a casas e bifurcações espalhadas pelo cenário. Já no santuário, a proposta é mais linear. Explorar é essencial em Silent Hill f, pois cada canto pode esconder um item valioso ou até mesmo a chance de salvar seu progresso em mini santuários.
Esses santuários não apenas funcionam como pontos de salvamento, mas também são fundamentais para o crescimento da protagonista, permitindo aumentar atributos como vida, vigor, sanidade e até a quantidade de slots para equipar amuletos úteis no combate. Além disso, o jogador pode realizar oferendas vendendo itens raros encontrados no cenário e usar a moeda do jogo, chamada Fé, para adquirir novos amuletos.
Silent Hill F terá locais opcionais e puzzles desafiadores
Construído na Unreal Engine 5, Silent Hill f apresenta um visual impressionante. Cada personagem é retratado de forma realista e convincente, com expressões faciais que transmitem perfeitamente o horror e o desespero. Este review foi feito na versão de PC, rodando em uma RTX 4070 Super, em resolução 2K (1440p) a 60fps, com todas as configurações no máximo. Embora o jogo se beneficie bastante dos recursos da UE5, também sofre com algumas limitações do motor gráfico da Epic.
O título apresenta episódios de stuttering, mas nada que tenha comprometido minha experiência. Consegui mergulhar nesse universo e apreciar todo o seu visual sem maiores problemas.
E os puzzles?


A franquia Silent Hill contém puzzles criativos e desafiadores, que variam de acordo com a dificuldade escolhida. Quem não se lembra do quebra-cabeça de Silent Hill 3, no modo difícil, que envolvia os livros de Shakespeare? O famoso “Quebra-cabeça da Antologia de Shakespeare” exigia que o jogador organizasse cinco obras do autor em uma prateleira, baseando-se em citações retiradas de suas antologias. Em outras palavras, para solucioná-lo era necessário conhecer previamente esses livros reais (ou então recorrer a uma boa pesquisa na internet).
Em Silent Hill f, tive uma experiência semelhante à que vivi em Silent Hill 3. Sem entrar em muitos detalhes, há um puzzle que me levou a pesquisar sobre o vocabulário Leet — um sistema de escrita que substitui letras por números e símbolos semelhantes. Por exemplo: C0m80 1nf1n170 (Combo Infinito). Acredito que, quando um puzzle consegue te fazer buscar soluções além da tela, é um sinal extremamente positivo. E nesse aspecto, Silent Hill f honra o legado da franquia com seus enigmas criativos. No jogo, é possível escolher a dificuldade dos puzzles entre três opções: Narrativa, Difícil e Perdida na Névoa.
Joguei na dificuldade Difícil e perdi horas queimando meus neurônios. Mas valeu a pena. Além de criativos, os puzzles exigem atenção redobrada aos documentos encontrados pelo caminho. Nesse ponto, o jogo foi bastante engenhoso. Durante a tela de resolução dos enigmas, é possível acessar de forma prática todas as informações necessárias, sem precisar sair do puzzle. Essa decisão de design é uma verdadeira qualidade de vida dentro dos desafios de Silent Hill f.
Mas afinal, Silent Hill f é tudo isso mesmo?


Depois de 16 horas, Silent Hill f é a prova de que a franquia e seu terror tão influente estão de volta em uma nova roupagem. O trabalho da Neobards Entertainment, que até então não tinha em seu currículo nada realmente memorável, agora se consolida com uma obra digna dos grandes títulos da série.
Com uma narrativa pesada e sensível, ambientação deslumbrante e trilha sonora marcante, o jogo entrega uma das experiências mais impactantes de 2025. Apesar de o combate ainda ser um ponto de divergência, o conjunto da obra é simplesmente espetacular.
Silent Hill está oficialmente de volta, e muito bem representado.
Silent Hill f: Silent Hill f entrega um retorno impactante, com narrativa pesada, ambientação belíssima e puzzles criativos. Mesmo com um combate frustrante em alguns momentos, é um dos jogos mais marcantes de 2025 e um renascimento digno da icônica franquia. – João Antônio










